Meu filho, minha filha, eu vi a rachadura por dentro de você. Aquela que ninguém enxerga porque você aprendeu a sorrir por cima dela, a responder bem quando perguntam como você está. Eu não preciso que você explique nada, não preciso que você organize as palavras certas antes de falar comigo. Eu já sei onde dói, desde antes de você mesmo entender.
Você pensa que precisa estar inteiro para eu chegar perto. É exatamente o contrário. Quanto mais quebrantado o seu coração, mais perto eu fico, porque é ali, no meio dos cacos, que meu cuidado tem mais espaço para agir. Eu não espero lá longe, distante, esperando você se consertar sozinho antes de me procurar. Eu sento do seu lado agora, sem pressa de sair.
Não tenha pressa de parecer bem diante de ninguém, nem de mim. Deixa eu cuidar do que está quebrado, devagar, camada por camada, no meu tempo, não no seu relógio. Eu sou especialista em juntar o que se estilhaçou, em dar utilidade nova até para os pedaços mais afiados. E o que eu junto fica mais forte do que era antes de quebrar.