Faz tempo que você não conversa comigo de verdade. Não é julgamento, é só uma constatação que os dois sabemos bem. A vida engoliu, a rotina engoliu, talvez uma mágoa antiga com alguma decepção espiritual tenha engolido também um pedaço da sua vontade de se aproximar. E agora você sente vergonha até de voltar, como se precisasse de uma desculpa boa demais para justificar o tempo que passou longe.
Mas eu não fico contando os dias que você ficou distante, marcando numa lista quantas vezes você me ignorou. Eu fico esperando na porta, como aquele pai da história antiga que via o filho ainda de longe, ainda maltrapilho, e já corria ao encontro dele antes de qualquer palavra. Você não precisa ter um discurso pronto nem estar arrumado por dentro para voltar.
Voltar para mim é simples, mais simples do que você imagina: é virar o rosto na minha direção outra vez, sem cerimônia. Um "oi, Pai, eu tô aqui" sussurrado baixinho já é suficiente para eu correr até você.